quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A IGREJA E A CULTURA

por Howard A. Snyder
A Bíblia traça um perfil claro do que a igreja está destinada a ser, e narra a história primitiva da igreja em dois contextos culturais: a sociedade judaica da Palestina e a sociedade greco-romana do primeiro século. Na base deste testemunho bíblico a igreja em cada época enfrenta a tarefa de formar as estruturas que forem mais compatíveis com sua natureza e missão dentro da sua cultura específica.
Mas aqui enfrentamos um problema espinhoso. Sabemos que biblicamente a igreja é o povo de Deus e a comunhão do Espírito Santo, não uma instituição organizacional. Mas quando olhamos para a igreja contemporânea vemo-la não somente (e nem mesmo primariamente) como um povo; encontramos também uma proliferação de denominações, instituições, agencias, associações e edifícios para os quais o nome igreja é aplicado. A Bíblia não menciona tais instituições e estruturas. Elas claramente não têm uma base bíblica explícita. Como tratar com essas estruturas à luz do quadro bíblico da igreja?
Enfrentamos aqui o problema de cultura. Tanto os padrões organizacionais como a arquitetura são expressões dos valores e normas culturais específicos. Como podemos de maneira pratica, manter um entendimento bíblico da igreja se a igreja incorpora a si mesma nesta imensa manifestação de estruturas variadas e culturalmente condicionadas?
Para responder esta pergunta, gostaria agora de delinear o meu entendimento da visão bíblica da igreja, relacionando-a especialmente aos problemas de cultura e estrutura.
Donald McGavran falado “magnificente e intricado mosaico da humanidade” representado pelas culturas do mundo, e enfatiza que a “adaptação do cristianismo a cultura de cada peça do mosaico é de vital importância”. Desta forma o objetivo da igreja é “multiplicar, em cada peça do magnificente mosaico, verdadeiras igrejas cristas que se encaixem naquela peça, que sejam intimamente adaptadas a sua cultura, e reconhecidas pelos não cristãos desta peça como ‘nosso tipo de show’“. Isto está acontecendo hoje de forma marcante. O corpo de Cristo é maravilhosa e gloriosamente diversificado, e isto ocorre ainda mais a medida que o fogo do evangelho salta barreiras culturais e atinge pessoas que nunca antes o ouviram. Porém, enquanto isso acontece o problema de cultura se torna crucial para a igreja. Como tratar com o problema de estrutura diante da crescente diversificação cultural?
CONCEITOS TRADICIONAIS DA IGREJA
É comum referir-se à igreja visível e à igreja invisível. Embora esta distinção não seja totalmente satisfatória, realmente ajuda resolver um problema que está sempre diante de nos: o contraste doloroso entre o que a igreja foi chamada para ser (o povo santo e justo de Deus) e o que muitas vezes na verdade é (uma organização humana rixenta e perversa). Através de distinguir o visível do invisível, podemos pelo menos dizer que realmente existe uma igreja santa, espiritual e dirigida por Deus, que nosso olho normalmente não vê.
A visão bíblica da igreja pode ser contrastada com dois conceitos tradicionais que correspondem aproximadamente a distinção entre a igreja visível e a igreja invisível. Esses são os conceitos institucional e místico.
O conceito institucional identifica a estrutura institucional visível com a essência da igreja e não faz uma distinção significativa entre as duas. Desta forma a maioria das denominações são chamadas de igrejas, e na pratica igreja e denominação significam a mesma coisa.
Embora este conceito alcançasse sua forma mais elaborada no Catolicismo Romano, é também comum entre os protestantes. Porém, no Protestantismo não representa tanto uma posição teórica ou teológica como um uso comum e popular. Refletindo bem, muitos sem dúvida diriam que uma instituição não significa a mesma coisa que a igreja, e o conceito da igreja invisível surgiria. Mas na verdade o uso popular não faz esta distinção, e igreja e identificada com estrutura organizacional.
Talvez não seja errado chamar denominações ou estruturas institucionais de igrejas — mas isto não é o que a Bíblia quer dizer com igreja! Quando Paulo ou Pedro ou Jesus Cristo dizem igreja, eles claramente não se referem a uma instituição ou organização. Não é isto que igreja visível significaria para os apóstolos.
Em contraste, o conceito místico coloca a igreja além do tempo, espaço e pecado como uma realidade etérea que compreende todos os verdadeiros crentes em Cristo e que é conhecida somente por Deus. É, portanto, invisível no sentido que seus limites exatos são desconhecidos por qualquer homem. O conceito místico tenta resolver o problema da disparidade embaraçante entre a igreja institucional, ou visível, e a igreja que a Bíblia descreve. É um pouco semelhante a teoria de idéias de Platão; o que vemos pode ser imperfeito mas uma igreja perfeita existe no invisível.
É claro que há uma igreja invisível, ou melhor dizendo, a verdadeira igreja de Cristo supera a realidade visível. Mas isto também não é o que a Bíblia normalmente quer dizer com igreja. Embora a Bíblia fale realmente sobre a grande multidão de salvos de todas as nações e de todas as épocas, que compõe a única e verdadeira igreja, isto não é o significado comum de igreja no Novo Testamento; aliás o significado de igreja nas Escrituras não é um conceito altamente místico. Pode haver uma igreja invisível, mas tal conceito imaterial não é muito útil para se entender a vida e crescimento da igreja na terra e na história. Quando a Bíblia diz igreja geralmente não está se referindo a uma realidade invisível e etérea, divorciada dó tempo e espaço, assim como não está se referindo a uma organização institucional.
Ambos os conceitos têm algo em comum: não levam a sério o problema da cultura. No conceito institucional a igreja torna tão entrosada com sua cultura específica que a natureza culturalmente condicionada da maioria de sua vida e estrutura passa despercebida. Desta forma a igreja fica culturalmente limitada. Isto cria problemas especialmente quando as culturas mudam ou quando se tenta fazer evangelismo transcultural.
No conceito místico, porém, a igreja flutua nebulosamente acima da cultura e nunca se envolve nas dimensões limitantes de espaço, tempo e história. Fatores culturais que afetam teologia, estruturas e evangelismo não são levados em conta.
Desta forma tanto o conceito institucional como o conceito místico são inadequados. Ambos obscurecem o claro significado bíblico da igreja - um por identificar totalmente a igreja com a cultura, o outro por remover a igreja da cultura. Em ambos os casos a cultura se torna “invisível”.
Para um entendimento bíblico da igreja devemos ir além do tradicional conceito visível-invisível e retornar para o conceito bíblico original e mais fundamental. Devemos considerar a igreja seriamente de tal modo que espaço, tempo e história (as dimensões da cultura) sejam também considerados seriamente.
COMO A BÍBLIA VÊ A IGREJA
Em contraste aos conceitos tradicionais, a Bíblia descreve a igreja no meio da cultura, esforçando-se para manter sua integridade, enquanto é atacada pelos ácidos corrosivos do paganismo e legalismo judaico. Este conceito é nitidamente relevante para a época moderna. Veremos resumidamente três aspectos essenciais do conceito bíblico.
1. A Bíblia vê a igreja numa perspectiva histórica e cósmica. As Escrituras colocam a igreja exatamente no centro do propósito cósmico de Deus. Isto é visto de modo mais claro nos escritos de Paulo, e especialmente no livro de Efésios. Paulo estava interessado em falar sobre a igreja como o resultado, e dentro do contexto, do plano de Deus para toda sua criação (Ef 1:9-10, 20-23; 3:10; 6:12).
O que é este plano cósmico? Baseado nos três primeiros capítulos de Efésios podemos dizer que é que Deus glorifique a si mesmo pela convergência de todas as coisas em Cristo pela igreja. A idéia chave é claramente reconciliação — não somente do homem com Deus, mas a reconciliação de todas as coisas, “coisas no céu e coisas na terra” (Ef 1:10). É central para este plano a reconciliação do homem com Deus através do sangue de Jesus Cristo. Mas a reconciliação que Cristo traz abrange todas as alienações causadas pelo pecado do homem: entre o homem e ele mesmo, entre o homem e os outros homens, entre o homem e seu ambiente físico. Mesmo que isto ultrapasse nosso entendimento, as Escrituras ensinam que esta reconciliação também inclui a redenção do universo físico, aniquilando os efeitos do pecado a medida que todas as coisas forem sujeitas à própria autoridade de Jesus Cristo.
Paulo enfatiza a salvação individual e coletiva através de Cristo, e a partir daí prossegue para colocar a salvação pessoal na perspectiva cósmica. A redenção de pessoas é o centro do plano de Deus, mas não é a circunferência deste plano. Paulo alterna entre uma visão próxima e uma visão de longa distância, na maior parte do tempo focalizando na visão próxima de redenção pessoal mas periodicamente mudando para a visão ampla de longo alcance que inclui “todas as coisas” — coisas visíveis e invisíveis; coisas passadas, presentes e futuras; coisas no céu e coisas na terra; todos os principados e poderes — a total cena cósmica e histórica.
Historicamente, o povo de Deus não tem discordado tanto sobre o que Deus está fazendo no mundo mas sobre quando ele o fará. A maioria dos cristãos admite que, de um modo ou de outro, Deus está levando a historia para uma consumação cósmica. Mas um lado tem dito: “Agora não; depois!” E o outro grupo tem reagido dizendo: “Depois não; agora!” Aqueles que adiam qualquer presença real do reino para depois da volta de Cristo (“Agora não; depois”) não esperam qualquer renovação substancial agora, exceto no campo da experiência humana individual — não em política, arte, educação, cultura em geral, e nem mesmo, realmente, na igreja. No outro lado estão aqueles que enfatizam tanto a renovação presente na sociedade em geral que tanto a conversão pessoal como a volta de Cristo no tempo e espaço são negadas ou ofuscadas, e a forte tendência pecaminosa do homem não é levada a sério.
Esperançosamente, os cristãos hoje através do mundo estão começando a ver que o reino de Deus nem é totalmente presente e nem totalmente futuro. O reino de Deus (a união de todas as coisas em Jesus Cristo) é aqui e agora, está chegando, e virá. Francis Schaeffer expressa bem este conceito equilibrado quando fala sobre uma “cura substancial” agora em todas as áreas de alienação causadas pelo pecado. Os cristãos não devem deixar toda verdadeira reconciliação para um futuro escatológico; nem devem esperar perfeição total agora. O que Deus promete é uma cura substancial agora e uma cura total depois da volta de Cristo. Colocando este fato em termos do plano cósmico de Deus, podemos dizer que Deus já tem iniciado a reconciliação de todas as coisas na história humana.
Qual é, então, o papel da igreja no plano cósmico de Deus? De acordo com Efésios 3:10, a vontade de Deus é “que pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celestiais”. A igreja é o agente terreno da reconciliação cósmica que Deus quer. Deus está realizando seu propósito cósmico através da instrumental idade da igreja. Isto significa que a missão da igreja é algo além do evangelismo. Evangelismo é o papel central da igreja como agente da reconciliação e portanto é primordial. Mas a missão da igreja inclui a reconciliação em outras áreas também.
O missiologista (estudioso de missões) alemão Peter Beyerhaus esclarece o papel da igreja no propósito cósmico de Deus ao dizer que a igreja é “a nova comunidade messiânica do reino”. Beyerhaus diz: “O reino messiânico pressupõe uma comunidade messiânica”. Desta forma a igreja no mundo “é a forma comunal transitória do reino de Deus” na época atual, e através de sua igreja Cristo exerce um importantíssimo ministério que promoverá a vinda visível do reino”. Então a igreja é ó agente de Deus na terra do seu reino vindouro. Beyerhaus define este reino como “o senhorio redentor de Deus conquistando progressivamente o coração dos homens com tal poder liberador que suas vidas e através deles finalmente toda a criação (Rm 8:21) se transforme em cândida harmonia com sua vontade divina”.
É por esta perspectiva cósmica que a Bíblia vê a igreja. O reino de Deus está chegando, e na proporção em que esta vinda ocorre na historia, no tempo e no espaço antes da volta de Cristo, é que há de ser realizada através do povo de Deus.
2. A Bíblia vê a igreja em termos carismáticos, não em termos institucionais. De acordo com o Novo Testamento, a igreja é um organismo carismático, não uma organização institucional. A igreja é o resultado da graça (no grego, charis) de Deus. É pela graça que a igreja é salva (Ef 2:8), e pelo exercício dos dons espirituais da graça (carismata) que é edificada (Rm 12:6-8; Ef 4: 7-16; 1 Pe 4:10, 11). Desta forma a igreja é, por definição, carismática. Como Clark Pinnock observa: “De acordo com as Escrituras, a igreja é uma comunidade carismática”.
A característica essencial da igreja é vida, como sugerem as figuras bíblicas da igreja. É claro que sua vida é uma vida organizada, mas essa organização é secundária e derivada. É o resultado da vida. A igreja é, em primeiro lugar, um organismo espiritual, que pode, em segundo lugar, ter algumas expressões de organização.
O Novo Testamento e os escritos dos primeiros pais da igreja mostram que a igreja primitiva se considerava uma comunidade carismática, não uma organização ou instituição. Donald Bloesch diz que “a maioria dos historiadores da igreja concorda que a igreja apostólica era uma comunidade carismática e espiritual.” Com a institucionalização gradativa da igreja, porém, o conceito de igreja como uma organização se tornou mais proeminente e quase anulou o conceito organo-carismático, especialmente no ocidente, onde os conceitos romanos de lei e estado influenciaram a igreja. Desta forma “na historia da teologia a igreja como a comunidade reunida dos fiéis tem sido muitas vezes negligenciada em favor da igreja como instituição”, afirma o teólogo católico romano Hans Küng.
No conceito bíblico, Deus da seu gracioso dom de salvação, baseado na obra de Cristo por meio da instrumental idade do Espírito Santo. Isto fornece a base para a vida comunitária da igreja. A “multiforme graça” da pura luz de Deus é então refratada à medida que brilha através da igreja, produzindo os carismas multi-coloridos e variados. Isto fornece a base para a diversidade da igreja dentro da unidade. A igreja é edificada através do exercício dos dons espirituais à medida que “todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta... efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4:16).
Isto é importante para ter uma igreja sadia e que cresce. Para a igreja alcançar seu verdadeiro potencial bíblico, deve ser baseada num modelo carismático, não num modelo institucional. Igrejas que possuem uma estrutura carismática geralmente estão preparadas para o futuro. Mas igrejas que estão enquadradas em estruturas rígidas, burocráticas e institucionais podem rapidamente encontrar-se presas em formas culturalmente limitadas que vão logo se tornando obsoletas.
3. A Bíblia vê a igreja como a comunidade do povo de Deus. As essenciais figuras bíblicas de corpo e noiva de Cristo, família, templo, vinha de Deus, etc., nos dão o conceito básico da igreja. Mas essas são metáforas e não uma definição. Eu creio que a definição mais bíblica é dizer que a igreja é a comunidade do povo de Deus. Os dois elementos chaves aqui são a igreja como um povo, a nova raça ou humanidade, e como uma comunidade, ou uma comunhão.
Povo e comunidade são dois extremos que formam juntos a realidade bíblica da igreja. Por um lado, a igreja é o povo de Deus. Este conceito, com ricas raízes no Velho Testamento, confirma o fato objetivo da ação de Deus através da história de chamar e preparar “uma raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1 Pe 2:9). A ênfase aqui está na universalidade da igreja — o povo de Deus espalhado através do mundo em centenas de denominações, movimentos e outras estruturas específicas. Vista na perspectiva cósmica e histórica, a igreja é o povo de Deus.
Por outro lado, a igreja é uma comunidade, ou uma comunhão, uma koinonia. Esta ênfase, encontrada mais no Novo Testamento, se origina diretamente da experiência do Pentecoste. Se ser um povo confirma a continuidade do plano de Deus do Velho Testamento para o Novo Testamento, comunidade aponta para a “Nova Aliança”, o “vinho novo”, a “coisa nova” que Deus fez na ressurreição de Jesus Cristo e no batismo no Espírito no Pentecoste. A ênfase aqui está na localidade da igreja em sua vida comunitária intensa e interacional no nível de cada congregação local. Vista como um organismo carismático, a igreja é a comunidade do Espírito Santo.
A igreja é, então, a comunidade do povo de Deus. É um organismo carismático estabelecido por Deus como o agente do seu plano para a história humana. Assim ela tem valor transcultural e pode ser implantada e cultivada em qualquer cultura humana.
A ESTRUTURA DA IGREJA NUMA PERSPECTIVA TRANSCULTURAL
Se a igreja é a comunidade do povo de Deus, que diremos então das diversas instituições, organizações, denominações e estruturas arquiteturais que comumente incluímos debaixo do guarda-chuva igreja? Qual a relação dessas estruturas com a igreja como comunidade de Deus?
As duas tendências mais comuns têm sido por um lado dizer que estas estruturas são realmente parte da essência da igreja, e assim são “sacramentadas”, ou por outro lado tomar uma posição anti-institucional e insistir que todas estas estruturas são inválidas e devem ser abandonadas. Uma opção mais útil, porém, é considerar todas essas estruturas como estruturas paraeclesiásticas que coexistem paralelamente com a comunidade do povo de Deus, embora elas mesmas não sejam a igreja. Estas estruturas são úteis na medida em que auxiliam a igreja em sua missão, mas são formadas pelo homem e limitadas pela cultura. Se a própria igreja faz parte do novo vinho do evangelho, então todas as estruturas paraeclesiásticas são odres — úteis, às vezes indispensáveis, mas também sujeitos a uso e desgaste. A igreja é a comunidade do povo de Deus, e isto é o que a Bíblia quer dizer com igreja. A igreja não pode ser nada mais do que isto! As estruturas institucionais, então, são melhor entendidas como algo diferente da igreja — auxílios potencialmente úteis para a vida e ministério da igreja, mas nunca uma parte essencial da igreja.
Normalmente, estruturas paraeclesiásticas têm sido entendidas como organizações extradenominacionais ou interdenominacionais, como por exemplo, a Associação Evangelística Billy Graham ou a Associação Nacional dos Evangélicos. As próprias denominações geralmente não são entendidas como estruturas paraeclesiásticas. Como a igreja no sentido bíblico é sempre um povo e somente um povo, então qualquer estrutura institucional, seja uma denominação, uma agência missionária, um colégio cristão, uma editora evangélica ou uma associação evangelística, é uma estrutura paraeclesiástica. Em outras palavras, do ponto de vista bíblico, tanto uma associação evangelística como uma organização denominacional são estruturas paraeclesiásticas, enquanto as comunidades de crentes dentro dessas estruturas são a igreja. Estruturas paraeclesiásticas, incluindo denominações, podem ser legítimas e necessárias, mas não são a igreja. Para mim esta conclusão parece inevitável à luz dos ensinamentos bíblicos sobre a essência da igreja.
Isto significa, então, que todas as estruturas são estruturas paraeclesiásticas, e que nenhuma delas em si mesma faz parte da essência da igreja? Não necessariamente. A igreja é um corpo e portanto é estruturada como um corpo. Assim para serem biblicamente válidas, quaisquer estruturas que forem realmente estruturas de igreja, só o podem ser se forem carismáticas e orgânicas. Fora disto é uma estrutura paraeclesiástica. Estruturas institucionais e organizacionais podem ter valor como estruturas paraeclesiásticas, mas não devem ser confundidas com a igreja como a comunidade do povo de Deus. A Bíblia mesmo nos dá alguns princípios sobre a estrutura orgânica da igreja, e algumas estruturas básicas da igreja podem ser vistas na vida da igreja do Novo Testamento. Mais na frente irei resumi-las.
Quero sugerir primeiro, porém, vários benefícios provenientes da distinção entre estruturas eclesiásticas e paraeclesiásticas: 1. Uma estrutura transculturalmente relevante (que é a igreja no sentido bíblico) difere daquela que é culturalmente condicionada e limitada (estruturas paraeclesiásticas). Desta forma temos condições de ver a igreja culturalmente relevante e envolvida, mas não culturalmente limitada. 2. Temos condições também de modificar as estruturas paraeclesiásticas ã medida que ocorrem mudanças na cultura, pois essas não são em si mesmas a igreja e, portanto, são geralmente determinadas mais pela cultura do que pela Bíblia. 3. Finalmente, esta distinção capacita-nos a ver um amplo vaio de validade nas confissões e estruturas denominacionais. Se tais estruturas não são em si mesmas a igreja e são culturalmente condicionadas, então todos os volumes de controvérsia e polêmicas perdem sua força e se tornam meramente secundários. As mais variadas confissões são liberadas (pelo menos potencialmente) para concentrarem naquilo que as une — ser o povo de Deus e executar os serviços do reino — enquanto as diferenças estruturais ficam relegadas ao nível de relatividade cultural e histórica. Desta forma a questão crucial sobre estrutura não é mais sua legitimidade bíblica mas sua relevância funcional.
A figura 1 sugere outras implicações desta distinção entre estruturas eclesiásticas e estruturas paraeclesiásticas.
A IGREJA
ESTRUTURAS PARAECLESIÁSTICAS
01.
Criação de Deus
01.
Criação do homem
02.
Fato espiritual
02.
Fato sociológico
03.
Valor transcultural
03.
Culturalmente limitada
04.
Entendida e avaliada biblicamente
04.
Entendida e avaliada sociologicamente
05.
Validade determinada por qualidades espirituais e fidelidade as Escrituras
05.
Validade determinada por sua função em relação à missão da igreja
06.
Agente de Deus de evangelismo e reconciliação
06.
Agentes do homem para evangelismo e serviço
07.
Essencial
07.
Dispensável
08.
Eterna
08.
Secular e temporária
09.
Dada por revelação divina
09.
Formada por tradição humana
10.
Propósito: glorificar a Deus
10.
Propósito: servir à igreja


DIRETRIZES PARA A ESTRUTURA DA IGREJA
Segundo o quadro bíblico da igreja podemos agora destilar três princípios fundamentais para sua estrutura. Creio que esses princípios dão um alicerce bíblico básico para a estrutura da igreja em qualquer contexto cultural e ajudam a produzir testemunho e crescimento efetivos.
1. A liderança deve ser baseada no exercido dos dons espirituais. Não se deve permitir que padrões hierárquicos ou organizacionais obscureçam ou abafem o fundamental padrão bíblico de liderança carismática (isto é, instituída e ungida pelo Espírito).
No Novo Testamento a liderança foi formada no início pelos onze apóstolos originais, e mais tarde por Paulo e um crescente grupo de outros apóstolos, profetas, evangelistas, pastores, mestres, bispos, diáconos e presbíteros. Todas essas funções de liderança se relacionam com os dons espirituais. Portanto, é claro que no Novo Testamento a liderança era baseada no exercício dos dons espirituais de liderança que foram reconhecidos (formalmente ou informalmente) pela igreja.
Todos os dons espirituais devem ser enfatizados, não apenas os dons de liderança. Porém, esses últimos têm uma importância vital, pois sua função bíblica é exatamente despertar e preparar os outros dons (Ef 4: 11). Desta forma não somente a liderança, mas toda a vida da igreja, e baseada nos dons espirituais ou mais precisamente baseada em Cristo que desperta os dons espirituais em cada membro da comunidade.
2. A vida e o ministério da igreja devem ser construídos sobre estruturas viáveis de grupo grande e grupo pequeno. A vida normal de culto, comunhão, edificação e testemunho da igreja primitiva revela uma dupla ênfase — “no templo e de casa em casa” (At 5:42). Enquanto a vida comunitária da igreja se centralizou principalmente nos lares, a adoração e a edificação ocorreram tanto no templo como nas reuniões pequenas nas casas (At 2:42,46,47; 4:34,35; 5:25,42). Embora o culto no templo judaico eventualmente cessasse, as reuniões tanto de grupo grande como de grupo pequeno parecem ter caracterizado a vida normal da igreja primitiva por todo o mundo mediterrâneo.
Houve dois focos na vida da igreja primitiva: a grande congregação e o grupo pequeno. Isto foi também o padrão dos discípulos que seguiram Jesus. Por dois ou três anos os discípulos gastaram a maior parte do seu tempo ou entre as multidões ao ar livre e no templo, ou em conferências particulares de grupo pequeno com o Mestre. Sempre havia este ritmo de grupo pequeno—grupo grande, onde o grupo pequeno produzia a intensa vida de comunidade que dava profundidade às reuniões de grupo grande.
Teologicamente, as reuniões de grupo grande e grupo pequeno são as conseqüências estruturais do fato da igreja ser o povo de Deus e a comunhão do Espírito Santo. Ser o povo implica na necessidade de reuniões em grupo grande enquanto a comunidade requer estruturas de grupo pequeno.
A historia da igreja revela uma tendência repetitiva para solidificar e institucionalizar o grupo grande, unindo-o a uma forma e um edifício específicos, e ao mesmo tempo negligenciando ou condenando o grupo pequeno. Quase todo grande movimento de renovação espiritual na igreja cristã tem sido acompanhado por um retorno ao grupo pequeno e de uma proliferação de tais grupos nos lares para estudo bíblico, oração e comunhão. Portanto, sejam quais forem as outras estruturas que possam ser consideradas úteis, as estruturas de grupo grande e grupo pequeno devem ser fundamentais. Embora a forma específica de tais estruturas possa variar de acordo com a cultura e as circunstâncias, ambas são necessárias para manter a comunhão e o testemunho. Não se deve permitir que nenhuma outra estrutura ou forma destrua ou substitua nem o ajuntamento de grupo grande nem o grupo pequeno de comunhão.
O grupo grande e o grupo pequeno são necessários não somente para comunhão e testemunho mas também para disciplina. Dean M. Kelley enfatizou em “Por Que As Igrejas Conservadoras Estão Crescendo?” que disciplina ou “rigor” é uma característica de quase todo movimento religioso que tenha sido significativo na transformação da sociedade. Kelley diz: “Um grupo que manifesta força social manifestará proporcionalmente uma característica de rigor; um grupo com características de indulgência manifestará proporcionalmente fraqueza social ao invés de força.”
O evangelho faz altas exigências de todos os crentes e requer ardente disciplina. Mas como esta disciplina deve ser mantida? Se a igreja é realmente bíblica, tal disciplina não será imposta hierarquicamente mas será inerente ou intrínseca, imposta pela própria comunidade com base num depósito de valores compartilhados por todos e exercida sob a liderança do Espírito Santo. O grupo pequeno é a estrutura natural para esta função. Providencia o contexto ideal para manter a disciplina necessária, pois é o lugar onde os valores comuns são encontrados, compartilhados e reforçados. Isto não é apenas válido sociologicamente, mas corresponde com o que Jesus e Paulo ensinam (Mt 18:15-20; 1 Co 5: 3-13).
3. Uma distinção clara deve ser feita entre as estruturas eclesiásticas e paraeclesiásticas. Os cristãos devem ver a si mesmos como a comunidade do povo de Deus, e não em primeiro lugar como membros de uma organização. Para muitas igrejas contemporâneas isto seria revolucionário.
Toda igreja precisa entender que estruturas institucionais são válidas (desde que realmente ajudem a igreja em sua vida e testemunho) mas não são sagradas. O importante, portanto, não é determinar quais estruturas paraeclesiásticas devem ou não existir, mas enfatizar a relatividade e as limitações de tais estruturas.
Em resumo, a igreja como comunidade do povo de Deus deve ser estruturada nos dons espirituais de liderança e em algum tipo de reunião de grupo grande e grupo pequeno. Além disto, a igreja deve procurar distinguir entre sua própria essência e todas as estruturas paraeclesiásticas para que não fique limitada culturalmente; para que, por outro lado, nos períodos de conturbação o vinho não seja jogado fora junto com os odres. É isto, basicamente, que aconteceu na Rússia em 1917, e pode acontecer numa escala maior no futuro.
Esses três princípios estão ilustrados na figura 2.
IMPLICAÇÕES PARA O TESTEMUNHO TRANSCULTURAL
Varias conclusões sobre o testemunho mundial e transcultural da igreja resultam da discussão anterior.
1. A Bíblia sempre apresenta a igreja como transculturalmente relevante. Isto é verdade porque a igreja é um organismo cósmico, histórico e carismático que se origina da ação divina e transcende qualquer forma cultural específica. Por ser criada por Deus, no seu nível mais profundo a igreja corresponde a estrutura vigente, a estrutura da realidade como Deus a fez.
2. De modo semelhante, as estruturas básicas de liderança carismática e reuniões de grupo pequeno e grupo grande são sempre viáveis transculturalmente. Isto segue a analise anterior e tem também sido abundantemente demonstrado durante a historia da igreja e na atual época missionária.

3. Por outro lado, as estruturas paraeclesiásticas não são necessariamente validas transculturalmente. Por serem determinadas pela cultura, estruturas paraeclesiásticas especificas só serão transportadas de uma cultura para outra na proporção em que as duas culturas forem compatíveis. Adaptações básicas terão que ser feitas freqüentemente.
4. O exercício dos dons espirituais produzira evangelismo transcultural. Desde o início da igreja e através dos séculos, Deus tem chamado e enviado seus missionários carismaticamente capacitados, Paulo relacionou seu próprio ministério missionário ao dom carismático que ele recebera (Ef 3:7-8). O padrão de Antioquia (At 13:1-4) tem sido repetido inúmeras vezes e continuara a se repetir até a volta de Cristo (Mt 24:14). É Deus quem chama e concede dons, e o dom e o chamado vão juntos.
5. A igreja é em si mesma uma estrutura missionária, e qualquer grupo de missionárias pode ser uma manifestação legítima da igreja. Isto significa que não pode haver divergência entre a igreja e “estruturas missionárias”. Onde os missionários estiverem, aí está a igreja; e aí os missionários são responsáveis por demonstrar a realidade da comunidade cristã. O ponto crucial da tensão, portanto, é entre a igreja como comunidade do povo de Deus e as expressões institucionais da igreja. Se Cristo está realmente neles, os missionários nunca poderiam ir para uma outra cultura e deixar a igreja para trás. Entretanto podem, e muitas vezes devem, deixar para trás ou modificar as formas paraeclesiásticas peculiares à sua própria cultura.
6. Por outro lado, estruturas missionárias e evangelísticas paraeclesiásticas devem ser criadas onde forem necessárias para a realização do trabalho. Enquanto a igreja é o agente de Deus para a reconciliação cósmica, as dinâmicas estruturas paraeclesiásticas podem ser agentes humanos de reconciliação, úteis nas mãos de Deus para a expansão mais rápida e efetiva do reino. Grupos denominacionais devem livremente colaborar com outras organizações paraeclesiásticas que estão fazendo o trabalho que eles mesmos não podem fazer ou que os ajudarão a realizar seu próprio testemunho. Tais organizações, porém, devem ser sempre dirigidas, em última análise, para a formação e edificação da igreja (embora o façam de formas bem diversificadas) ou para a extensão do ministério da igreja, ao mesmo tempo que não permitam confusão entre essas organizações e a igreja, e nem que elas se tornem um fim em si mesmas.
7. Se todas as estruturas paraeclesiásticas são formadas pelo homem e são culturalmente limitadas, devem ser sujeitas a continuas e rigorosas análises teológicas e sociológicas, para determinar sua fidelidade ao conceito bíblico de igreja e sua eficácia como instrumento da igreja. Não devemos hesitarem fazer minuciosíssimos estudos sociológicos de agências missionárias, movimentos evangelísticos, estruturas denominacionais, etc. Algumas estruturas paraeclesiásticas devem ser dedicadas exclusivamente para esta tarefa. A historia nos ensina que muitas estruturas eclesiásticas eventualmente sucumbirão ao institucionalismo e se tornarão obstáculos ao invés de auxílio para a igreja. O fato de Deus ter levantado um movimento não é garantia contra eventual infidelidade ou egocentrismo. Se fizermos uma distinção clara entre essas estruturas e d essência da igreja, poderemos livremente perguntar até que ponto essas formas são realmente funcionais.
As melhores organizações paraeclesiásticas aceitarão esta espécie de avaliação e possivelmente elas mesmas tomarão iniciativa para que isto seja feito. Aqueles grupos paraeclesiásticos que se sentirem ameaçados com esta avaliação são muitas vezes os que mais estão precisando disto.
Não há salvação fora da igreja a menos que o Corpo de Cristo seja decapitado, separado da Cabeça; pois quando alguém é regenerado ele se torna parte do Corpo de Cristo. A igreja é o Corpo de Cristo, a comunidade do Espírito Santo, a povo de Deus. Desta forma, é o agente do plano de Deus para reconciliar todas as coisas em Jesus Cristo. A necessidade do momento é entender a igreja como um organismo carismático dotado pelo Espírito que é válido transculturalmente, não como uma organização institucional moldada pelo mundo. Uma vez que esta distinção é feita, o crescimento e o testemunho normais da igreja podem ser entendidos e planejados, e as várias estruturas paraeclesiásticas, incluindo as denominações, podem ser consideradas e usadas eficientemente.

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