quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A oração é tão vasta quanto o próprio Deus

Precisamos novamente de homens de Deus

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ministrar ao Senhor ou à casa? (Watchman Nee)

Leitura da Bíblia: Ez 44.15-18
Notemos, a principio, que há aparentemente pouca diferença entre ministrar à casa e ministrar ao Senhor. Muitos de vocês estão fazendo o máximo para ajudar seus irmãos e estão labutando para salvar pecadores e administrar as questões relacionadas à igreja, mas deixem-me perguntar-lhes: vocês têm procurado ir ao encontro das necessidades ao seu redor ou têm procurado servir ao Senhor? Vocês têm em vista o seu próximo ou Ele?
Sejamos bem francos. Trabalhar pelo Senhor, sem dúvida, tem suas atrações para a carne. Você pode achar isso muito interessante e ficar empolgado quando multidões se juntam para ouvi-lo pregar, e quando muitas almas são salvas. Se tiver de ficar em casa, ocupado de manhã à noite com coisas seculares, você, então, haverá de pensar: “Como a vida é sem sentido! Que bom seria se eu pudesse sair e servir ao Senhor! Se pelo menos eu fosse livre para andar por aí pregando ou mesmo conversando com as pessoas a respeito Dele!”
Isso, porém, não é espiritualidade; é meramente uma preferência natural. Oh, se ao menos pudéssemos ver que muita obra feita para Deus não é realmente ministrar a Ele! Ele próprio nos disse que havia uma classe de levitas que, diligentemente, serviam no templo e assim mesmo não O serviam, mas meramente serviam à casa. Serviço ao Senhor e serviço à casa parecem ser tão semelhantes que freqüentemente é difícil fazer diferença entre ambos.
Se um israelita viesse ao templo e quisesse adorar a Deus, aqueles levitas viriam em seu auxílio e o ajudariam a oferecer sua oferta pacífica e seu holocausto. Eles o ajudariam a levar 0 sacrifício ao altar e lá o imolariam. Certamente aquela era uma grande obra na qual eles deviam se envolver – restaurar pecadores e conduzir crentes para mais perto do Senhor! E Deus levou em conta o serviço daqueles levitas, que ajudavam as pessoas a trazer suas ofertas pacíficas e seus holocaustos ao altar. Ainda assim, Deus disse que isso não era ministrar a Ele.
Irmãos e irmãs, há um pesado encargo em meu coração para fazê-los perceber o que Deus está querendo. Ele quer ministros que ministrem a Ele. “Se chegarão a Mim, para Me servirem, e estarão diante de Mim, para Me oferecerem a gordura e o sangue (…) para Me servirem”.
O que eu mais temo é que muitos de vocês saiam e ganhem pecadores para o Senhor e edifiquem crentes, sem, no entanto, ministrar ao próprio Senhor. Muito do assim chamado serviço a Ele é simplesmente estarmos seguindo nossas próprias inclinações naturais. Temos tanta disposição para atividades que não suportamos ficar em casa; por isso corremos e corremos para nosso próprio alívio. Podemos estar servindo pecadores e estar servindo crentes, mas estamos a todo tempo servindo a nossa propria carne.

Tive uma querida amiga que agora está com o Senhor. Um dia, depois de termos passado juntos algum tempo em oração, lemos essa passagem em Ezequiel. Ela era bem mais velha do que eu e dirigiu-se a mim deste modo: “Meu jovem irmao, há vinte anos estudei pela primeira vez essa passagem da Escritura”. “Como você reagiu a ela?”, perguntei. Ela replicou: “Tão logo terminei de lê-la, fechei minha Biblia e, ajoelhando-me diante do Senhor, orei: ‘Senhor, faz com que eu seja alguem que ministre a Ti, não ao templo”‘. Será que nós também poderíamos fazer esta oração?
Mas o que nós realmente queremos dizer quando falamos em servir a Deus ou servir ao templo? Aqui está o que a Palavra diz: “Mas os sacerdotes levíticos, os filhos de Zadoque, que cumpriram as prescrições do Meu santuário, quando os filhos de Israel se extraviaram de Mim, eles se chegarão a Mim, para Me servirem, e estarão diante de Mim, para Me oferecerem a gordura e o sangue, diz o Senhor Deus”. As condições básicas para qualquer ministério que realmente possa ser chamado de ministério ao Senhor são: chegar-se a Ele e estar diante Dele.
Freqüentemente, como achamos difícil chegar a Sua presença! Recuamos diante da solidão, e, mesmo quando nos separamos fisicamente, nossos pensamentos ainda ficam vagando. Muitos de nós gostam de trabalhar entre pessoas, mas quantos de nós se achegam a Deus no Santo dos Santos? Entretanto, é somente quando nos aproximamos Dele que podemos ministrar a Ele. Entrar na presença de Deus e ajoelhar-se diante Dele por uma hora exige toda a força que possuímos. Temos de ser rigorosos para manter essa posição. Contudo, todo aquele que serve ao Senhor conhece a preciosidade de tais momentos – a doçura de acordar à meia-noite e gastar um tempo em oração, ou acordar bem cedo de manhã e levantar-se para um tempo de oração, antes de terminar o sono noturno. Deixem-me ser bem franco com vocês: a menos que realmente saibamos o que é achegar-se a Deus, não poderemos saber o que é servi-Lo. É impossível permanecer distante e ainda ministrar a Ele. Não podemos servi-Lo à distância. Há somente um lugar onde é possível ministrar a Ele, e esse é o Lugar Santo. No átrio exterior você se aproxima das pessoas; no Lugar Santo você se aproxima do Senhor.
A passagem que citamos enfatiza a necessidade de nos achegarmos a Deus, se quisermos ministrar a Ele. Também fala de permanecer diante Dele para ministrar. Parece-me que hoje todos estamos querendo nos movimentar; não conseguimos permanecer quietos. Há tantas coisas reclamando nossa atenção que estamos constantemente ocupados, não conseguimos parar por um instante. Uma pessoa espiritual, entretanto, sabe como permanecer quieta. Ela consegue permanecer diante de Deus até que Ele torne Sua vontade conhecida. Ela consegue ficar quieta e esperar as ordens.
Quero dirigir-me especialmente a meus cooperadores. Posso perguntar-lhes: todo o seu trabalho não é invariavelmente organizado e executado de acordo com um cronograma? E ele não tem de ser feito com grande pressa? Vocês podem ser persuadidos a fazer uma parada e não se mover por algum tempo? Isso é o que se menciona aqui: “chegarão (…) para Me servirem”.
Ninguém pode realmente ministrar ao Senhor e não conhecer o significado desta expressao: “Se chegarão a Mim, para Me servirem”. Tampouco pode alguém ministrar a Ele e não entender também esta expressão: “Estarão diante de Mim, para Me oferecerem”. Irmãos, vocês não acham que todo servo deve aguardar as ordens de seu amo antes de procurar servi-Lo?
Há somente dois tipos de pecado diante de Deus. Um é o pecado de rebelar-se contra os Seus mandamentos, isto é, recusar-se a obedecer quando Ele dá ordens. 0 outro é o pecado de avançar quando o Senhor não deu as ordens. 0 primeiro é rebelião; o segundo é presunção. Um é não fazer o que o Senhor exigiu; o outro é fazer o que o Senhor não exigiu. Ficar diante do Senhor trata com o pecado de fazer o que Ele não ordenou.
Irmãos e irmãs, quanto do trabalho que vocês fizeram foi baseado numa ordem clara do Senhor? Quanto vocês fizeram por causa de Suas instruções diretas? E quanto vocês fizeram simplesmente porque aquilo que fizeram era bom de se fazer? Deixem-me dizer-Ihes que nada prejudica tanto os interesses do Senhor como uma “coisa boa”. “Coisas boas” são o maior empecilho para o cumprimento de Sua vontade. Quando nos deparamos com qualquer coisa maligna ou impura, imediatamente reconhecemos nisso algo que o cristão deve evitar, e, por essa razão, as coisas que são evidentemente malignas não são tanto uma ameaça ao propósito de Deus como as coisas boas. Vocês podem pensar: “Isso não seria errado”, ou: “Aquilo é a melhor coisa que poderia ser feita”. Assim, vocês vão em frente e agem sem parar para perguntar se isso é a vontade de Deus. Oh, todos nós que somos Seus filhos sabemos que não devemos fazer nenhum mal, mas pensamos que uma vez que nossa consciência não proíbe tal coisa, ou se algo nos parece positivamente bom, isso é motivo suficiente para irmos em frente e fazê-lo.
Aquilo que vocês pensam fazer pode ser muito bom, mas vocês estão permanecendo diante do Senhor, aguardando Sua ordem a respeito daquilo? “Estarão diante de Mim” envolve permanecer na Sua presença e recusar a mover-se até que Ele dê Suas ordens. Ministrar ao Senhor significa isso. No átrio exterior é a necessidade humana que governa. Simplesmente permita que alguém venha para sacrificar um boi ou uma ovelha, e há trabalho para você fazer. No Santo dos Santos, entretanto, há completa reclusão. Alma nenhuma entra. Aqui, nenhum irmão ou irmã nos governa, nem alguma comissão determina nossas ações. No Santo dos Santos há somente uma autoridade – a do Senhor. Se Ele me designa uma tarefa, eu a realizo; se Ele nada me designa, eu nada faço.
Algo, porem, é exigido de nós quando permanecemos diante do Senhor e ministramos a Ele. Requer-se de nós que Lhe ofereçamos “a gordura e o sangue”. 0 sangue responde às exigências de Sua santidade e justiça; a gordura vai ao encontro de Sua glória. O sangue trata com a questão de nosso pecado; a gordura trata com a questão de Sua satisfação. O sangue remove tudo o que pertence à velha criação; a gordura introduz a nova. E isso é algo mais do que doutrina espiritual. Nossa vida da alma foi envolvida no derramamento de Sua alma até a morte. Quando derramou Seu sangue eternamente incorruptível, Ele não só estava derramando a própria vida, mas também toda a vida que o homem tinha por nascimento natural. Ele não só morreu, mas ressuscitou dentre os mortos e “a vida que agora vive, vive para Deus”. Ele vive para a satisfação de Deus. Ele oferece “a gordura e o sangue”. Nós tambem, que queremos ministrar ao Senhor, precisamos oferecer a gordura e o sangue. E o impossível é possível com base no que Ele fez.
Tal ministério, porém, está confinado a certo lugar: “Eles entrarão no Meu santuario, e se chegarão a Minha mesa, para Me servirem, e cumprirão as Minhas prescrições” (v. 16). 0 ministrar que é “a Mim” é no santuário interior, no lugar oculto, não no átrio exterior, exposto à vista pública. As pessoas podem pensar que não estamos fazendo nada, mas o serviço a Deus dentro do Lugar Santo transcende em muito o serviço ao povo no átrio exterior. Irmãos e irmãs, aprendamos o que significa permanecer diante do Senhor aguardando Suas ordens, servindo somente sob Seu comando e sendo governados por nenhuma outra coisa senão a Sua vontade.
A mesma passagem nos fala como devem se vestir os que ministram ao Senhor: “Usarão vestes de linho; não se porá lã sobre e1es, quando servirem nas portas do átrio interior, dentro do templo. Tiaras de linho lhes estarão sobre as cabeças, e calções de linho sobre as coxas”. Os que ministram ao Senhor não podem usar lã. Por que não? A razão é dada a seguir: “Não se cingirão a ponto de lhes vir suor” (vv. 17,18). Nenhuma obra que produz suor é aceitáve1 ao Senhor. Afinal, que significa suor? Todos sabemos que a primeira vez que suor é mencionado nas Escrituras foi quando Adão foi expulso do jardim do Éden. Depois que Adão pecou, Deus pronunciou esta sentença: “Maldita é a terra por tua causa: em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida (…) no suor do rosto comerás o teu pão” (Gn 3.17,19). Está claro que suor é uma condição de maldição. Porquanto a maldição estava na terra, ela cessou de dar seu fruto sem o esforço do homem, e tal esforço produzia suor. Quando a bênção de Deus é retirada, torna-se necessário o esforço carnal, e isso causa suor.
Toda obra que produz suor é positivamente proibida àque1es que ministram ao Senhor. Ainda hoje que dispêndio de energia há em obras feitas para Ele! Ah! poucos cristãos hoje podem fazer qualquer obra sem suor. A obra deles envolve planejamento e esquematização, exortações e instâncias, e muita correria.
Não pode ser feita sem grande zelo carnal. Hoje em dia, se não houver suor, não poderá haver obra. Antes de ser empreendida qualquer obra para Deus, há muita correria para lá e para cá, fazendo-se muitos contatos; há consultas e discussões, obtendo-se, por fim, a aprovação de diversas pessoas antes de ir em frente. Quanto a esperar quieto na presença de Deus e buscar Suas instruções, isso está fora de questao. No entanto, numa obra espiritual, o único fator a
ser levado em conta é Deus. A única Pessoa que se deve contatar é Deus. Oh! esta é a preciosidade da obra espiritual: ela está relacionada com Deus. E em relação a Ele há uma obra a ser feita, mas é obra que não produz suor. Se tivermos de divulgar a obra e utilizar grande esforço para promovê-la, então, é  óbvio que ela não brota da oração na presença de Deus. Por favor, acompanhe-me quando digo que toda obra que é realmente espiritual é feita na presença de Deus. Se você trabalhar realmente na presença de Deus, ao entrar na presença dos homens, eles responderão. Você não terá de usar meios sem fim para ajudá-los. Obra espiritual é obra de Deus, e quando Deus trabalha, o homem não precisa despender muito esforço, a ponto de suar.
Irmãos e irmãs, vamos, com toda honestidade, examinar a nós mesmos diante de Deus hoje. Vamos perguntar-Lhe: “Estou servindo a Ti ou estou servindo à obra? 0 meu ministério é ‘para o Senhor’ ou é ‘para a casa’?” Se você está suando o tempo todo, então, você mesmo pode chegar à conclusão de que está servindo à casa e não ao Senhor. Se toda a sua atividade está relacionada com a necessidade humana, você pode ficar ciente de que está servindo a homens, não a Deus. Não estou desprezando o trabalho de imolar sacrifícios no altar; é uma obra para Deus e alguém tem de fazê-la, mas Deus quer algo mais do que isso.
Deus não pode garantir todos para o serviço a Si mesmo, porque muitos dos que são Seus relutam em abandonar a emoção e a excitação do átrio exterior. Eles são propensos a servir às pessoas. Mas, e quanto a nós? Oh, que digamos hoje ao Senhor: “Eu estou disposto a renunciar às coisas; eu estou disposto a renunciar à obra; eu estou disposto a renunciar ao átrio exterior e quero servir-Te no santuário interior”.
Quando Deus não conseguiu trazer todos os levitas ao local onde deviam ministrar a Ele, Ele escolheu os filhos de Zadoque dentre eles para este serviço especial. Por que Ele selecionou os filhos de Zadoque? Porque, quando os filhos de Israel se desviaram, eles reconheceram que o átrio exterior ficara irreparavelmente corrompido e por isso não procuraram preservá-lo, mas encarregaram-se de preservar a santidade do Lugar Santo.
Irmãos e irmãs, vocês conseguem suportar a idéia de abandonar a estrutura externa ou persistirão em montar uma proteçãao para preservá-la? É o Lugar Santo que Deus deseja preservar – um lugar totalmente separado para Ele, um lugar em que o padrão é absoluto. Oh! eu lhes suplico, diante de Deus, que ouçam Seu chamado para renunciar ao átrio exterior e a se devotar a Seu serviço no Lugar Santo.
Gosto de ler em Atos 13 sobre os profetas e mestres na igreja em Antioquia: “Servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse 0 Espirito Santo: Separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Ali vemos o único princípio que governa a obra para Deus na dispensação do Novo Testamento. 0 Espírito Santo comissiona homens para a obra somente quando eles estão ministrando ao Senhor. Se o ministrar ao Senhor não for a única coisa que nos governa, a obra ficará em confusao. No início da história da igreja em Antioquia, o Espírito Santo disse: “Separai-Me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Deus não quer voluntários para Sua obra; Ele quer convocados. Ele não terá você pregando o evangelho só porque você quer. A obra do Senhor hoje está sofrendo sério dano nas mãos de voluntários; faltam aqueles que podem dizer como Ele: “Aquele que Me enviou”. Oh, irmãos e irmãs, a obra de Deus é Sua própria obra e não uma obra que você pode abraçar a seu bel-prazer. Nem igrejas, nem sociedades missionárias, nem equipes de evangelização podem enviar homens para trabalhar para Deus. A autoridade para comissionar homens não está nas mãos de homens, mas tão-somente nas mãos do Espírito de Deus.
Servir ao Senhor não significa que não servimos ao nosso próximo, mas significa que todo serviço a homens tem o serviço ao Senhor como sua base. É o serviço a Deus que nos impele a servir ao homem.
Lucas 17.7-10 nos diz claramente o que o Senhor quer. Há dois tipos de obra mencionadas aqui: arar o campo e guardar o gado. Ambas são ocupações muito importantes, ainda que o Senhor diga que, até mesmo quando um servo retorna de tal trabalho, espera-se que ele providencie a satisfação de seu amo antes de sentar-se para desfrutar sua própria comida. Quando voltamos de nossa labuta no campo, estamos aptos para complacentemente meditar no muito trabalho que executamos, mas o Senhor poderá dizer: “Prepara-Me a ceia, cinge-te”. Ele exige o ministrar a Ele. Podemos ter labutado num campo bem grande e cuidado de muitas ovelhas, mas toda a nossa labuta no campo e junto ao gado não nos isenta de ministrar à propria satisfação pessoal do Senhor. Essa é a nossa suprema tarefa.
Irmãos e irmãs, estamos realmente atrás de quê? Somente trabalhar no campo? Somente pregar o evangelho aos incrédulos? Somente cuidar do gado? Somente cuidar das necessidades dos salvos? Ou será que estamos cuidando a fim de que o Senhor coma para Sua plena satisfação e beber até que Sua sede seja saciada? Realmente, é-nos necessário também comer e beber, mas isso só deve acontecer após o Senhor estar satisfeito. Nós também precisamos ter nosso desfrute, mas isso jamais poderá ocorrer antes que o gozo do Senhor seja pleno. Perguntemo-nos: nosso trabalho ministra para nossa satisfação ou para a satisfação do Senhor? Temo que, ao trabalharmos pelo Senhor, freqüentemente ficamos satisfeitos antes que Ele fique satisfeito. Muitas vezes ficamos tão felizes com nossa obra enquanto Ele não encontra prazer algum nela.
Irmãos e irmãs, quando fizemos o melhor, ainda temos de admitir que somos servos inúteis. Nosso objetivo não é ministrar ao mundo, nem à igreja, mas ministrar ao Senhor. E bem-aventurados aqueles que conseguem diferenciar entre ministrar aos pecadores ou aos santos e ministrar a Ele. Tal discernimento não é facilmente adquirido. Somente mediante um tratamento drástico aprenderemos a diferença entre ministrar ao próprio Senhor e ministrar à casa.
No entanto, se o Espírito Santo tiver Seu caminho em nossa vida, Ele proverá de acordo com a necessidade. Busquemos a graça de Deus a fim de que Ele nos revele o que realmente significa ministrar a Ele!
(Doze Cestos Cheios, vol. 2, Editora Árvore da Vida)

Libertando-se das Ataduras

Quando Maria chegou ao lugar onde estava Jesus, ao vê-lo, lançou-se-lhe aos pés, dizendo: Senhor, se estiveras aqui, meu irmão não teria morrido... Disse Jesus: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias. Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, então, a pedra... E Jesus clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! Saiu aquele que estivera morto, tendo os pés e as mãos ligados com ataduras e o rosto envolto num lenço. Então, lhes ordenou Jesus: Desatai-o e deixai-o ir. Jo 11.32-44.

 Quero chamar a atenção para alguns pontos importantes nesse texto tão simples e precioso:

 O afastamento da presença de Jesus, mesmo que sejamos amigos dele, pode causar a nossa morte – porém, quem crê em Jesus, ainda que morra, viverá;

 Existem alguns "sepulcros" em nosso interior que, se Jesus mandar remover-lhes a pedra, vão exalar mau cheiro, pois há coisa morta lá dentro – mas Jesus manda remover a pedra, pois quer nos ministrar sua vida e seu perfume;

 A pessoa, mesmo após ter sido vivificada por Jesus, pode ainda estar amarrada com algumas ataduras – e Jesus também manda que sejam tiradas.

 Esses três princípios podem ser aplicados a muitas questões de nosso dia-a-dia, mas quero me deter na questão da simplicidade. Podemos ver aqui um quadro das nossas vidas depois que fomos chamadas da morte para a vida, convertendo-nos ao Senhor Jesus.

 Antes estávamos mortos em nossos delitos e pecados, nossas vidas eram verdadeiros sepulcros e cheiravam mal. Mas cremos em Jesus e fomos, com isso, vivificados por ele. Atendemos ao chamado, saímos para fora, mas não passamos logo a experimentar uma vida de plenitude, pois, como Lázaro, ainda estávamos amarrados com muitas ataduras. Essas ataduras representam aquelas práticas do passado, certos hábitos que tínhamos, coisas que fazíamos para dar uma aparência melhor ao nosso "defunto pessoal", para melhorar nosso cheiro diante das pessoas. Mas depois de vivificados por Jesus, não precisamos mais delas – temos a Vida, temos uma aparência melhor. Aleluia! E essas amarras agora só nos atrapalham, não nos deixando experimentar um fluir de Deus mais intenso, entrar na plenitude do evangelho.

 Essa teologia faz sentido para você? Está precisando se livrar de algumas ataduras ainda? Vou dar apenas alguns exemplos:

 1) A não confiança na provisão de Deus

 Há alguns meses, li um estudo (Conspiração Divina, Dallas Willard, Editora Mundo Cristão, pág. 289) e, depois de me imaginar dentro da mesma situação, fiquei estarrecido: Alguém entrou no quarto de seu filho e levou um tremendo susto com o que encontrou no meio das roupas emboladas, como se estivesse escondendo algo precioso - um pacote de biscoitos, um tubo de pasta de dente, algumas fatias de bacon, um pedaço de fio dental, junto a outros itens de uso diário. A princípio, o pai apenas achou estranho o fato, até indagar do filho o significado desses objetos guardados. O filho explicou que sempre tinha todas essas coisas disponíveis em sua casa, e que seu pai sempre as comprava. Mas se acontecesse de um dia o pai deixar de comprá-las, ele teria um estoque de reserva para sua manutenção. O pai caiu em profunda tristeza com essa atitude de seu filho e chorou amargamente, com imensa decepção. Suas palavras quase não saíam: "Meu filho, por que isso? Não tenho diariamente suprido todas as suas necessidades?"

 Até esse ponto, a história parece algo bobo, ilógico, sem qualquer significado para nós. Mas não é exatamente isso que fazemos com nosso Pai Celestial, através de atitudes que revelam nossa falta de confiança nele? "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje..." Foi assim que aprendemos a orar, de acordo com as palavras de Jesus. Quantas vezes repetimos isso, sem atentar ao menos para o seu significado? Precisamos parar de viver em função de guardar coisas para o dia em que Deus falhar! Quando realmente confiarmos em Jeová-Jiré, nosso Provedor, uma grande revolução acontecerá em nossas vidas.

 2) Considerar a abundância de bens materiais como sinal da bênção de Deus

 Simplicidade significa abrir mão de certos hábitos, de comprar certas coisas, não por falta de dinheiro (pois muitos são simples devido às circunstâncias, mas não pela pobreza de espírito, mencionada por Jesus), mas porque entendem que não devem juntar tesouros nesta terra. Em vez de comprar um Nike, compram um Bamba. Mesmo com dinheiro suficiente para adquirir um carro de luxo, continuam andando de Fusca ou Uno Mille.

 Francisco de Assis era riquíssimo, mas escolheu uma vida de simplicidade depois de ter uma forte experiência com Deus, o que produziu um verdadeiro avivamento na Itália, com repercussões até no Vaticano. Diariamente repassava todos os donativos que recebia além de suas necessidades diárias, pois cria que, no dia seguinte, Deus proveria tudo de que precisasse.

 Conheço uma cristã em Niterói, RJ, que tem uma grande experiência com Deus nessa área. Recentemente, perguntei a ela o seu segredo. Ela simplesmente me disse que tem se alimentado de Jesus e não tem mais fome para as coisas do mundo. Jesus a sacia plenamente, e posso testificar que realmente está acostumada a participar de verdadeiros banquetes na presença de Deus. Mas nada disso foi por imposição religiosa nem por doutrinas de falsa piedade – foi fruto de intimidade com Deus e por ter encontrado a pérola de grande valor.

 Esse assunto precisa ser encarado com responsabilidade, pois não se trata de legalismo ou imposição de conduta. O que está em jogo não é a aparência exterior, mas as intenções e propósitos do coração (Mt 6:1). Não queremos também voltar ao movimento hippie dos anos 60, quando muitos jovens deixaram tudo para uma vida de paz e amor, sendo que continuavam sustentados pelos "papais" industriais e burgueses.

 Mas algumas pessoas que já têm uma conduta exemplar, como o jovem rico, são chamadas por Deus a entrarem em uma outra dimensão no reino dele – são as que podem ter, mas abrem mão, as que deixam tudo porque encontraram algo de maior valor, algo que o dinheiro não pode comprar. A primeira realidade espiritual perdida pela igreja primitiva talvez seja a última a ser restaurada – uma vida desapegada do dinheiro, dos bens materiais.

 3) A necessidade do reconhecimento religioso


 Nos tempos bíblicos, havia um único pastor – o Senhor. Todos os demais ministérios estariam no nível daqueles cachorrinhos que correm em volta das ovelhas, ajudando o Pastor a cuidar de seu rebanho. Você pode até dizer que havia apóstolos, bispos, mestres, no entanto estes não eram cargos, mas encargos (ou funções) desempenhadas pelos membros do Corpo.

 Hoje existe uma busca tão frenética e desenfreada por títulos eclesiásticos que fico até assustado. Estamos chegando à época em que teremos mais apóstolos que ovelhas (uma só igreja próxima ao meu local de trabalho tem 70!). Com tantos apóstolos, surgiu até a necessidade de um título para quem é maior que apóstolo. Pai-póstolo? Chanceler?

 Quem não se alimenta de Jesus fica faminto por títulos e honrarias humanas. Os escribas e fariseus praticavam obras com o fim de serem vistos pelos homens (Mt 23.5-7). O ensino de Jesus que diz "o maior dentre vós será o vosso servo" perdeu completamente o sentido na igreja moderna. Quando buscamos reconhecimento humano, comumente Deus se afasta porque esse assunto não lhe diz respeito. Não é à toa que o primeiro mandamento é "Não terás outros deuses além de mim". Ele quer nosso coração voltado só para ele.

 Quando temos preocupação com a impressão que estamos causando aos outros ou encaramos a reputação como um tesouro a ser conquistado e guardado, isso se torna um laço para nós. Vai tirando nosso fôlego de vida e, como Lázaro, começamos a cheirar mal. Em vez de nos arrependermos e voltarmos a nos alimentar de Jesus – o Pão dos Céus – enfaixamo-nos com gazes e ataduras para nos embelezar. Vamos nos enrolando cada dia mais.

 Em 1997, encontrei um homem de Deus no Rio de Janeiro, com quem estava sem contato há 15 anos. Tive a oportunidade de lhe perguntar sobre o que Deus estaria para fazer na igreja, em nossos dias, já que esta pessoa teve uma atuação muito expressiva em trazer grandes revelações de Deus para o Brasil. A resposta que ouvi foi a que menos esperava: "Não existem grandes revelações para nossos dias; Deus quer nos levar para as coisas simples, para as verdades elementares do evangelho – o sangue, a comunhão, a ceia, a cruz". Saí dali mancando, como Jacó, como se tivesse sido tocado no meu nervo ciático. E, de lá para cá, tenho compreendido que realmente Deus quer nos levar para as coisas mais simples, as quais temos abandonado, complicando e tentando modernizar a vida cristã.

 Se você está como Lázaro, deixe alguém tirar a pedra do sepulcro em que você se meteu. Vai exalar mau cheiro, mas quando Jesus injetar vida nas suas veias, o cheiro de morte irá embora. Quando for vivificado, deixe também que alguém tire suas ataduras. Para a liberdade foi que Cristo nos libertou (Gl 5.1).

 Ezequiel Netto faz parte do Conselho Editorial da revista Impacto. É médico veterinário e reside atualmente em Campinas, com sua esposa Val e suas três filhas. E-mail:ezequielnetto@ig.com.br

por Ezequiel Netto

Gerações Perdidas

Parte Um - O fim da paternidade?

 Os dados estatísticos mostram profundas mudanças na composição e organização da sociedade nas últimas décadas do século 20 e início do século 21, e, evidentemente, o foco dessas mudanças aparece no jeito como vivem as famílias e no resultante comportamento das pessoas.

 O crescente número de mulheres arrimo de família que participam do PHLP [programa de habitação popular do governo de Minas Gerais] confirma as estatísticas divulgadas recentemente pelo IBGE. Os dados mostram que em 1993 as mulheres eram arrimo de 3,4% das famílias no país, o que significava, na época, 301 mil núcleos familiares. Já em 2007, a taxa subiu para 18,3% de mulheres como chefes do lar, o que equivale a 3,6 milhões de famílias. Fonte: Jus Brasil(http://www.jusbrasil.com.br/politica/1731030/mulheres-chefes-de-familia-sao-destaque-no-lares-geraes).

 O modelo que tínhamos no passado

 Meu pai e minha mãe, como a maioria dos pais e mães, avôs e avós da geração deles, viveram muito tempo casados. Os meus estão casados há quase 70 anos. Durante o tempo em que convivemos, vi meu pai chegar todos os dias do trabalho, geralmente cansado, mas com um jeito de quem sabia o que estava fazendo. A comida e o banho dele sempre eram prioridades visto que era uma pessoa muito importante para a família. Nas refeições, que estavam sempre prontas na hora exata e necessária, todos nos sentávamos à mesa, principalmente no jantar. Papai lia um texto da Bíblia, e orávamos agradecendo a Deus pela comida. Só então comíamos, esperando meu pai falar sobre as coisas que lhe estavam interessando ou preocupando.

 Eu sabia que, um dia, teria de exercer o papel que meu pai exercia naquela época, ou seja, eu deveria preparar-me para sustentar a família que viesse a formar e ser o líder. Por esse motivo, eu prestava muita atenção ao que papai falava e fazia. Éramos muito pobres, mas parece que isso não assustava nenhum de nós. Na verdade, eu admirava muito meu pai, pois dar de comer a todos, em todas as refeições, prover roupas e o necessário para nossa sobrevivência faziam-me pensar em como ele era forte, inteligente e indispensável e o quanto era importante o que ele dizia.

 Minha mãe sempre reforçava o que meu pai dizia; mesmo quando ele não estava em casa. Ela sempre estava. Nossas tarefas eram feitas sob as ordens dela, nossa rotina era observada por ela, e, quando alguma coisa não andava bem, meu pai tinha de ser informado para ajudá-la a colocar-nos na linha. Tínhamos liderança presente 100% do tempo, e nada escapava a essa equipe de comando. Sabíamos que era assim e que sempre seria; portanto, não adiantava reclamar. Era entrar na linha e obedecer.

 Foi assim a minha vida e a da maioria dos da minha geração, com uma ou outra variação. Todos nós sabíamos que a responsabilidade por fazer-nos adultos era de nossos pais e, apesar de acharmos ruim, tínhamos consciência de que era assim que as coisas deveriam ser.

 O que mudou nesse modelo nos dias atuais?

 Onde está mamãe? Onde está papai? Ah, não estão, só está a empregada. Eles estão trabalhando. Papai levantou muito cedo porque trabalha longe, e mamãe levou as crianças para a escola ou para a creche. Agora, na hora do almoço, o transporte escolar trouxe-as para casa, onde foram recebidas pela empregada. Passaram a tarde vendo TV ou foram para a escola de inglês, para a natação ou para tantas outras atividades que criança precisa fazer para ser bem-sucedida e ficar rica quando crescer.

 À noite, papai chegou cansado e foi ver televisão depois de comer alguma coisa esquentada no micro-ondas, mas mamãe não veio. Ela está estudando porque, para ser promovida no emprego, precisa fazer um curso e chega muito tarde. Ouve-se dizer que ela ganha muito mais que papai, e que ele pode ser demitido do trabalho a qualquer hora com essa crise. As crianças não se sentaram à mesa porque comeram alguma coisa mais cedo; talvez, um sanduíche ou uma batata frita daquelas que vêm do supermercado.

 Claro que mamãe ligou várias vezes durante o dia para saber se estava faltando alguma coisa para as crianças. Afinal, ela tem de fazer tudo para que nada lhes falte e ainda vigiar para saber se a empregada está fazendo tudo o que faria se ela estivesse presente.

 Ainda poderíamos acrescentar mais alguns ingredientes nessa cena: os filhos do papai do casamento anterior que, às vezes, passam o final de semana aqui, ou o ex-marido da mamãe ou a ex-mulher do papai. Tem também o problema do namoro dessa filha do papai, de 14 anos, que fica sozinha com o namoradinho todas as tardes e que agora parece estar grávida. Outro problema: o irmão dela que está aprendendo a fumar maconha com o colega do andar de cima do prédio onde moram. Uma coisa é certa: apesar de tudo, vamos ao shopping, todos os finais de semana, comprar brinquedos e roupas, e agora estou ouvindo falar de uma casa nova num condomínio maravilhoso.

 Quem deu fim àquele núcleo familiar tão estável e aconchegante?

 Segundo Fritjof Capra[1], estamos assistindo ao encerramento de um dos mais longos ciclos históricos que a humanidade já viveu – o patriarcalismo. O machismo pressionou até o limite das possibilidades, desvalorizando o papel da mulher na família e causando a reação do feminismo. A mulher foi à luta (e ganhou), mas, para isso, precisou sair de casa e ir ao campo de batalha. Resultado: o capitalismo agradece, e a família fica de luto.

 Começou com o desejo da mulher de ser independente e mostrar, à sociedade machista, que também era capaz de ganhar dinheiro como qualquer homem. No fim, porém, o capitalismo descobriu que todas as habilidades femininas (que não são poucas) seriam um excelente diferencial competitivo para as empresas em um mercado exigente. Por esse motivo, desenvolveu-se um novo modelo de organização, mais feminino, mais relacional, mais comunicativo e eficaz, no qual a mulher passou a ser uma peça fundamental com todos os seus talentos e sua enorme capacidade de trabalho. É tão marcante a mudança que, certamente, as empresas que não adotarem esse novo modelo organizacional não sobreviverão aos novos tempos, pois se tornarão ultrapassadas.

 Peter Druker, um dos mais conhecidos estudiosos da administração e irmão em Cristo, diz que, daqui a uns anos, quando olharmos de uma perspectiva histórica, certamente concluiremos que um dos eventos mais marcantes da história recente da humanidade terá sido a inserção da mulher no mercado de trabalho como concorrente do homem. É importante que você saiba que a isso se deve esse fim melancólico, que estamos testemunhando, do ambiente aconchegante e seguro que eram os lares, onde a equipe de comando de uma casa estava presente e atuante. A terceirização da criação dos filhos é a tragédia maior que está mudando para pior a sociedade atual. Entregou-se a formação da próxima geração para a escola, para a televisão, para as babás e para o acaso.

[1] Para mais a respeito do assunto, ver: O ponto de mutação, de Fritjof Capra, Editora Cultrix.

 Parte Dois - Três perguntas que não querem calar

 Para entender as gravíssimas consequências dessa tão drástica mudança na família e na sociedade, eu gostaria de propor três perguntas:

1.   Qual é a principal missão de uma geração?
2.   Com quantos anos uma criança torna-se o “protótipo” do adulto que será no futuro?
3.   Quem é o personagem principal da primeira etapa da vida de uma criança?

 Pode ser que você pense que essas perguntas nada têm a ver com o que foi escrito anteriormente, mas pode acreditar que têm tudo a ver.
Vamos olhar, então, para a primeira pergunta.

 Qual é a principal missão de uma geração?

 Evidentemente, existe um mecanismo pensado pelo Criador, em seu projeto original, para o aperfeiçoamento dos filhos que nasceriam para povoar e dominar a Terra. Nesse mecanismo, previu-se um impulso para frente e para cima de forma geracional, pois, mesmo depois da Queda e até hoje, percebe-se o interesse de cada pai em fazer com que seus filhos sejam melhores do que ele próprio o foi.
O texto bíblico que nos dá base para pensar assim é o seguinte:

Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta (grifo meu). Sl 127.3-5.

 A herança do Senhor para uma equipe de trabalho: galardão do ventre para a mulher e flechas para um guerreiro. É uma linda figura: um jovem guerreiro tomando, de sua aljava, flechas das quais se orgulha por lhe terem sido confiadas e atirando-as longe, uma a uma, com cuidado, para um alvo que faz parte de suas melhores aspirações e ao qual jamais chegaria sem elas. Esse é seu trabalho, para isso se preparou; sua pontaria e força estão concentradas nessa ação. Lançar cada flecha é a missão de sua vida. Esse impulso e essa vocação pertencem a cada pai: lançar seus filhos para um futuro digno de uma vida que seja relevante para a sociedade em que vive e para o mundo. Essa vocação foi planejada e impressa por Deus no coração dos homens.

 Se pudermos concordar com a resposta de que a principal missão de uma geração é preparar a próxima para torná-la melhor e ir mais longe do que a atual, poderemos passar à próxima pergunta.

 Com quantos anos uma criança torna-se o “protótipo” do adulto que será no futuro?

 Para entendermos a validade dessa pergunta, é necessário dizer que várias correntes de pensamento, inclusive estudos da psicologia, afirmam que, ao final da primeira infância, com 7 anos de idade, o caráter de uma pessoa já está delineado, ou seja, estão lançados os alicerces do comportamento que vai formar a personalidade do adulto que se tornará.

 Embora possa haver questionamentos sobre isso, temos, em algumas culturas, observações bastante sólidas para fundamentar esse argumento. Entre os judeus, por exemplo, o tempo de encerramento da infância emocional é aos 12 anos (gosto muito, pois não diferenciam primeira ou segunda infância, nem pré-adolescência ou adolescência). A cultura judaica tem um ritual de passagem para encerrar a infância emocional chamado Bar-Mitzvah para os meninos e Bat-Mitzvah para as meninas.

 Esse ritual ocorre em meio a uma festa em que a criança é apresentada à sua comunidade como pronta para assumir o aprendizado da vida adulta e, a partir da qual, ela passa a responder por seus atos. Sua infância terminou. Até o dia anterior, a criança era filha de alguém; já, no dia seguinte, ela é alguém conhecido pelo nome e responsável por seus atos. Pode, agora, participar da vida adulta e é tratado como tal. Mesmo entre povos distantes, separados pelo tempo e pela geografia, é possível observar que rituais semelhantes acontecem nessa mesma época da vida das crianças. Tribos indígenas brasileiras, povos aborígenes na Austrália e até mesmo a arqueologia dão notícias desses rituais em eras passadas.[2]

 Existe, então, uma fase na vida de cada criança em que ela tem de ser tratada como tal, mas esse tempo precisa ter um fim. O tempo para lançar alicerces para uma vida adulta saudável e produtiva se dá entre o nascimento e os 12 anos de idade. O que passar disso pode ser considerado adolescência doentia e, pior, a inutilização de uma vida e de seu significado para a sociedade. Será que você está pensando sobre isso?

 Se pudermos concordar que a resposta à pergunta acima é a de que uma criança torna-se protótipo do adulto que será no futuro com aproximadamente 12 anos ou menos, então poderemos prosseguir para a próxima e última pergunta.

 Quem é o personagem principal da primeira etapa da vida de uma criança?

 Para uma melhor contextualização, é necessário lembrar o óbvio: no evento da concepção, o homem e a mulher têm 100% de participação e responsabilidade; daí para frente, porém, o homem apenas apoia, circunda, protege e supre (aliás, isso ele fará durante toda a vida, pois suprir é uma de suas principais atribuições). A mulher, por sua vez, nutre, em seu interior, a vida do bebê, mistura-se, influencia e é influenciada por ele. Toda a sua vida e energia concentram-se na nova vida que se desenvolve em seu ventre.

 Esse é um papel inalienável da mulher, e aí se estabelece toda a diferença de função entre os dois cônjuges que é eternamente proposital e não deveria ser discutida. Nessa diferença, reside, em síntese, a identidade do homem e da mulher. Nunca o homem poderá ser uma mulher, nem a mulher ser o homem. Qualquer discussão ou dúvida sobre isso é loucura e desvario.

 É desnecessária a apresentação da sequência do processo da procriação. Gestar uma vida é a glória e o galardão da mulher. Em 1 Timóteo 2.15, Paulo, o apóstolo, nos diz que é a própria salvação dela; é sua exclusiva atribuição, um processo que lhe transforma o corpo e a alma. Nove meses de angústia, expectativa, dor e alegria misturam-se para dar à luz um ser que será sua responsabilidade, seu dependente, sua carne e sua vida. A mulher foi equipada pelo Criador para exercer essa sublime função, recebendo dele dons especiais, tanto na área física quanto na emocional e espiritual, para que transforme o bebê de uma semente viva em um adulto em potencial.

 Ela o entenderá desde o berço, pois tem o dom da comunicação apuradíssimo. Ela falará com ele, com ou sem palavras, sobre tudo que ele ainda não consegue expressar. Saberá cada sentimento, entenderá cada olhar, cada choro, cada movimento. Ela é a comunicação em pessoa.

 A criança descobre o mundo pelos olhos da mãe. Com ela, aprende a falar, e muito do que viu em suas expressões e atos nos primeiros meses ficará profundamente gravado para toda a vida. Ela o cerca, ensina, corrige, alimenta, constrói hábitos em um tempo absolutamente recorde. No prazo de curtos anos, ele saberá todo o necessário a respeito do mundo pela instrumentalidade de sua mãe. Se ela tiver outros filhos, cada um será sempre único e, mesmo com vários ao seu redor, saberá tratar cada um individualmente.

 Ela é multifuncional, sabe onde estão tudo e todos o tempo todo. Consegue saber as necessidades gerais da casa, desde as roupas que estão gastas ou ficando pequenas até o arroz e o sal que precisam ser repostos. Ela tem o dom de cuidar do marido, saber o que ele está sentindo ou pensando mesmo que não diga uma palavra. Pode ter uma imensa rede de relacionamentos e dar atenção a todos os detalhes. Lembra-se do aniversário dos amigos e amigas, coleciona receitas de bolo, cuida das contas do banco, faz o orçamento doméstico. Sabe o que está acontecendo no andar de cima, onde as crianças estão fazendo as tarefas da escola, sabe ensinar matemática, português e geografia, pensa no que vai fazer de almoço e gerencia todas as variáveis ao seu redor com a mesma naturalidade com que continua conversando ao telefone com a amiga a respeito da festa da semana passada.

 Claro, sei o que você está pensando: “Esse cara conheceu a Amélia”, mulher idealizada em prosa e verso em nossa cultura e que atualmente se transformou em modelo ultrapassado. “Essa mulher não existe mais!” É verdade; infelizmente e desastrosamente é verdade. Deus criou a mulher para ser muito superior à nossa Amélia. Se quiser entender melhor esse assunto, leia Provérbios 31. A mulher idealizada por Salomão agora não cuida mais de sua casa, é profissional competente, estudada, gerente, diretora ou empresária. Seu marido não se senta mais à porta da cidade, não tem mais a honra que lhe cabe.

 Não há dúvidas de que Deus se expressou de maneira generosa quando criou a mulher e atribuiu-lhe tantos dons; quem melhor do que ela para ser responsável por essa primeira fase da vida das crianças? Poderíamos fazer uma lista incrível das habilidades que ela recebeu para exercer essa tarefa, porque ele sabe o quanto é importante lançar os fundamentos das gerações. Desde o Éden, essa tem sido sua estratégia.

[1] Para mais a respeito desse assunto, ver: Passagem para a vida adulta, de Jeff Brodsky, Bless Editora. 

 Parte Três - O que está por trás dessa engenharia do mal?

 O machismo histórico provocou a perda da autoridade moral do homem e a reação da mulher, que, agora, coloca a serviço do capitalismo tudo o que é e recebeu da parte de Deus para a construção das gerações. A mulher ganhou a guerra dos sexos e perdeu a posição de edificadora do lar. Tudo o que ainda consegue fazer nessa área precisa ser feito em regime de dupla jornada.

 O capitalismo a redescobriu e paga-lhe muito bem para deixar sua vocação divina de preparar os alicerces da nova geração e continuar sua “guerra” inglória contra um machismo que, há muito, desapareceu.

 O homem perdeu sua importância, tornou-se alvo de piadas, perdeu a posição de provedor da família. Agora, espera-se que ele desenvolva características do gênero feminino para conseguir manter-se nesse novo modelo de empresa.

 Os filhos perderam a mãe edificadora e formadora e ganharam babás e muitos presentes. Perderam também a identidade e não têm mais, na pessoa do pai, a referência de futuro e até mesmo de identidade sexual.

 Ouvi, há pouco tempo, um relato estarrecedor. Quando chamaram a atenção de um menino de 9 anos aproximadamente a respeito de ter uma postura de homem, este respondeu à interlocutora: “Eu não decidi se quero ser homem; ainda não fiz minha opção sexual”. Evidentemente, ele não tem um modelo que o ajude a orgulhar-se de ser homem; na verdade, nem sabe o que é isso, não tem dados suficientes para entender.

 Como cristãos, nossa esperança é a restauração de toda uma geração que tem, como chamado e vocação, participar dos eventos que antecederão a volta de nosso Senhor Jesus Cristo, a restauração da Igreja, a Noiva do Cordeiro. Mas, assim como no tempo de Herodes, quando este soube do nascimento de Jesus e mandou matar todos os pequeninos, nós também estamos assistindo à matança da geração que nos sucederá. Os métodos mudaram; como nosso inimigo sabe que tem de fazer isso em grande escala, arquitetou essa estratégia maligna. Tirando as referências e bases desta geração, as pessoas matarão a si mesmas, ficarão perdidas, vagando a esmo numa existência irresponsável, vazia e sem objetivos. “Sem visão o povo se corrompe...”

 A geração que chega à vida adulta, no tempo atual, não tem mais quem lhes construa os alicerces: as mães. Os pais, que deveriam lhes passar o legado de uma visão clara de vida e futuro, estão desacreditados e desorientados. Dessa forma, os filhos tornam-se presas fáceis das drogas, da depressão e da promiscuidade.

 Voltar ao passado ou entender o que Deus realmente quer?

 Por desventura, essas palavras parecem-lhe sugerir que estamos propondo uma “doutrina” para remeter-nos a um passado de dominação masculina e subserviência feminina? Que submissão a qualquer custo é a palavra de ordem? Que a supremacia masculina deve prevalecer para honra e glória do sexo forte? Nada mais equivocado. Tampouco estou sugerindo que as mulheres abdiquem da carreira profissional ou deixem o emprego, mesmo porque isso já não é mais possível naturalmente falando.

 Por acaso, homens, vocês já grifaram, em sua Bíblia, o texto de 1 Pedro 3.7? “Igualmente vós, maridos, vivei com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais frágil, e como sendo elas herdeiras convosco da graça da vida, para que não sejam impedidas as vossas orações”. Muita oração está interrompida por falta de revelação, por falta de amor, visto que Pedro continua: “Finalmente, sede todos de um mesmo sentimento, compassivos, cheios de amor fraternal, misericordiosos, humildes” (v.8).

 Parece-me que Pedro não era machista, nem Deus é machista, embora, infelizmente, muitas mulheres pensem assim. Certamente, Deus não o é, porque, quando criou Adão, ele o criou à sua imagem e semelhança. Se Eva estava em Adão, ou seja, as características do gênero feminino que fazem parte da expressão e imagem de Deus, como Deus poderia ser machista?

 Nem homem nem mulher são completos em si mesmos, e a graça da vida é a manifestação da vida de Jesus em ambos. Como o homem e a mulher são herdeiros juntos, se a graça da vida manifestar-se no amor entre eles, certamente não haverá dominação, desconsideração ou desonra, e a harmonia do propósito de Deus para a sua geração será alcançada, porque o fruto do amor é a presença de Deus.

 Não creio em volta ao passado, mas devemos crer, sem receio ou insegurança, na Palavra de Deus. Em Malaquias 4.4-6, está o recado de Deus para a nossa geração: “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo, a qual lhe mandei em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e ordenanças. Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição”.

 A respeito do que o profeta está nos alertando? O que seria essa maldição senão a perdição de toda uma geração? Quem deve se converter a quem? A quem deve chegar primeiro a palavra de arrependimento? Evidentemente, exige-se, dos mais maduros, mais responsabilidade, e a partir desse princípio óbvio, não pode restar dúvida com respeito à resposta a essas perguntas.

 O papel intransferível de um pai de verdade

 Se ficou claro o papel idealizado por Deus para a mulher e mãe, e se a importância dessa função já foi enfatizada aqui, evidentemente devemos considerar a importância fundamental, indispensável e tão ignorada do papel do homem como pai e suas funções de líder e responsável espiritual por seu pequeno rebanho doméstico.

 Em primeiro lugar, foi dado ao homem o impulso para realizar-se como o supridor e provedor de sua casa, o que é uma honra.. Se cada homem desejar, no fundo do coração, essa honra, certamente Deus, que cuida dos pardais e dos lírios, satisfará esse anseio fundamental que ele próprio colocou em seu coração.

 Em segundo lugar (mas não necessariamente nessa ordem de importância), o pai é quem conduz o aprendizado de seus filhos a respeito do que é ser adulto, imprime neles o senso de visão e missão e, principalmente, abençoa seu destino. Segundo Craig Hill em seu livro Bar Barakah, a conotação da palavra hebraica Baruch (abençoar) é autorizar para prosperar não só financeiramente, mas também no cumprimento do destino com os filhos, a saúde, o casamento, a profissão e, principalmente, o ministério.

 Você se lembra de como Isaque abençoou Jacó em Gênesis 27 e de como, quando Esaú chegou, a bênção já havia sido dada? A bênção de um pai é algo concreto, não um amontoado de palavras proferidas mecânica e rotineiramente. Você já observou como a bênção de Isaque funcionou na descendência e fez Jacó prosperar em todos os sentidos até hoje? Você já observou as descendências de Esaú? Não é a mesma coisa; muito pelo contrário. Então, entenda que o pai tem uma bênção a ser ministrada para cada filho.

 Você já sentiu, percebeu ou discerniu qual a bênção e o destino dos filhos que Deus lhe deu? Se não, precisa falar com ele, pois, certamente, ele tem muito interesse na prosperidade do destino dos filhos que lhe confiou. Ele só tem você para realizar essa tarefa com aqueles que lhe confiou.

 Enquanto a mãe está dotada de dons e habilidade para lançar os alicerces, o pai está dotado por Deus de habilidades para levantar o edifício da vida de seus filhos. Nesse aprendizado, está acoplada a função paterna de reforçar, em seus filhos, a identidade, inclusive sexual, no sentido de ficarem liberados para exercer o papel digno do sexo com o qual Deus lhe presenteou.

 Como isso acontece? Vou tentar exemplificar. Tenho um amigo, cuja filha estava fazendo 12 anos. Um pouco antes da data, aquele pai me disse que queria dar um presente significativo para a jovem filha. Como eu havia entendido a mensagem da bênção da identidade sexual, sugeri: “Mande-lhe um buquê de rosas vermelhas e um cartão com um convite para jantar, só você e ela”.

 Aquele pai ficou emocionado com a ideia e fez isso. Dias depois, contou-me que a filha ficara maravilhada e disse que aquele fora o melhor presente de sua vida. Pense bem: o que aquele pai estava fazendo? Reforçando a identidade sexual daquela menina e, ao mesmo tempo, estabelecendo um padrão. Primeiro, ela deveria esperar despertar admiração em um homem. Segundo, esse homem deveria ser alguém que a respeitasse tanto quanto aquele pai a respeita. Pronto, você acha que essa menina vai se jogar nos braços de qualquer predador que se aproxime dela? Evidentemente, será muito mais difícil, pois a repetição de ações como essa imprimirá um senso de valor no coração de uma menina que ela jamais permitirá ser destruído.

 Em certa ocasião, quando meus filhos eram bem jovenzinhos ainda, eles assumiram um papel protetor quando saíam com a mãe deles. Abrindo a porta do carro, segurando o guarda-chuva ou não permitindo que ela fizesse mais esforço do que eles, mostravam que haviam adquirido, ao longo do tempo, estímulos para uma atitude masculina.

 Espero que cada moça seja abençoada com um marido que a trate como deve ser tratada: dando liderança, correndo riscos por ela, sacrificando-se e sempre reforçando sua identidade. Espero igualmente que cada rapaz seja abençoado com uma mulher que o admire e sinta-se orgulhosa por ter tal homem ao seu redor. Esta é a identidade sexual: orgulho santo de pertencer ao sexo com o qual veio ao mundo e liberdade para desempenhar, com honra e beleza, suas funções, servindo ao cônjuge e à família com essa identidade.

 Será que podemos sentir a importância do papel do homem nessa questão de lançar flechas bem-construídas e finamente acabadas para seu destino na próxima geração?

 Que o Pai nos abençoe com santo zelo pelas gerações que nos sucederão, com amor, sujeição e honra uns para com os outros, a fim de que a Terra não seja ferida com a maldição predita por Malaquias!




por Paulo Manzini
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