terça-feira, 31 de agosto de 2010

Quando Líderes Implodem

Quando Líderes Implodem

Mesmo sendo em outro país, dentro de contextos nem sempre idênticos à nossa realidade brasileira, escândalos com líderes cristãos respeitados e proeminentes sempre afetam, de uma forma ou de outra, a igreja como um todo. Quando Ted Haggard, presidente da “National Association of Evangelicals” (NAE) e pastor da giga-igreja “New Life Community”, em Colorado Springs, EUA, foi acusado, no início de novembro de 2006, de envolvimento com um garoto de programa e de ter comprado metanfetaminas (tipo de entorpecente), a mídia do mundo inteiro se deleitou com a notícia. A seguir, uma análise de Gordon MacDonald, um dos editores da revista “Leadership (do grupo “Christianity Today”), sobre qual deve ser nossa atitude diante desse tipo de acontecimento e o que podemos aprender dele. 

É com indescritível dificuldade que temos visto o nome e o rosto de Ted Haggard arrastados na lama em um noticiário da TV após outro. Ainda estamos em processo de apurar exatamente o que transcorreu na vida secreta de Ted durante esses últimos meses. Poucas horas após a revelação, a liderança da New Life Church anunciou que havia solicitado sua renúncia. Seu ministério na liderança daquela igreja e na NAE acabou.

Tenho passado um longo tempo na minha vida tentando compreender por que alguns homens e mulheres em todo tipo de liderança se enredam em perigosas armadilhas, sejam elas causadas por problemas morais ou financeiros, sejam pelo abuso de poder e egolatria. Pessoalmente, não sou um novato nas áreas de fracasso e humilhação pública. Desde aqueles terríveis momentos pelos quais passei há vinte anos, comecei a acreditar que em muitos de nós existe um eu mais profundo que não difere muito de um assassino. 

Esse eu mais profundo (como um contencioso membro da diretoria) pode ser uma fonte de atitudes e comportamentos que repugnam a nossa mente consciente. Seu objetivo é destruir-nos e ele consegue lançar mão de enormes energias, as quais, se não forem impedidas, poderão levar-nos a fazer as próprias coisas que abominamos. Se você já foi queimado de forma tão avassaladora como eu  fui – junto com meus queridos –, com certeza, jamais passa um só dia sem lembrar que existe algo lá dentro que, se não for vigiado, se soltará com força violenta e arrasadora. Wallace Hamilton escreveu certa vez que “dentro de cada um de nós existe uma manada de cavalos selvagens, só esperando a chance de correr soltos”. 

Parece-me que quando uma pessoa se torna líder de uma grande organização ou movimento, quando se torna famosa e suas opiniões são constantemente solicitadas pela mídia, ela entra numa posição extremamente vulnerável. A própria força que impulsiona o líder a obter conquistas extraordinárias é o ímpeto que, muitas vezes, o leva a buscar níveis sempre maiores, mesmo depois de atingir objetivos e metas razoáveis. Como um rio que rompe seus diques, esse ímpeto costuma se enveredar atrás de sensações ou empolgações que podem ser extremamente perigosas e destrutivas.

Por vezes, o ímpeto parece indomável. É o que parece ter ocorrido, no Velho Testamento, com Davi e seu olhar erradio, com Uzias em seu tédio e com Salomão em sua insaciável fome de riquezas, mulheres e cavalos. Parece que buscavam – compulsivamente, talvez – novas emoções ou satisfações para suas necessidades pessoais mais profundas, pois os meios normais, satisfatórios para a maioria, já não lhes bastavam mais. 

Quando vejo um líder ficar teimoso e rígido, cada vez menos compassivo com seus adversários, cada vez mais tirânico dentro de sua própria organização, suscitando ódio e arrogância nos outros, fico pensando se ele não está gerando todo esse calor por estar tentando desesperadamente dizer “não” a algo que tenta irromper do mais profundo de sua própria alma. Não seriam suas palavras e atos dirigidos menos a algum inimigo “externo” que a um inimigo muito mais astuto que mora em sua própria alma? Mais de uma vez, presenciei pastores, que haviam passado horas imersos em pornografia, subirem ao púlpito um ou dois dias depois para pregar seus sermões “mais ungidos” contra a imoralidade. Eis uma contradição para dar nó em qualquer mente racional. 

Não há praticamente nenhuma forma de “cobertura”, mentoria ou sistema de prestação de contas que parece ser capaz de conter uma pessoa mergulhada em um tal conflito interno. Nem conseguirá conter uma pessoa que requer doses cada vez maiores de adrenalina para superar os picos alcançados ontem. Uma das mais incríveis habilidades de Jesus talvez tenha sido a de saber quando parar, como recusar o coquetel de privilégios, fama e aplausos que distorce a capacidade humana de pensar com sensatez e de ter domínio próprio. 

Mais de uma vez, temos visto uma pessoa revelar os verdadeiros fatos de um acontecimento, não de uma só vez, mas aos poucos, de tal forma que cada confissão torna-se um reconhecimento de culpa sobre aquilo que fora negado apenas um ou dois dias antes. Talvez a incapacidade de falar toda a verdade seja um sinal de que a pessoa, de fato, está mentindo para si própria e não consegue encarar toda a verdade do comportamento errado em sua própria alma. 

Na realidade, todo pecado tem sua origem quando se mente a si mesmo. Algumas das mentiras cardeais que levam um líder a fracassar:

  • Dou tudo de mim nesse cargo, então mereço certos privilégios – talvez mesmo o privilégio de estar acima das normas.

  • Tenho charme suficiente e palavras convincentes para transformar o que eu quiser (até mesmo minha inocência) em realidade.

  • Vivo a maior parte da minha vida acima da linha de santidade, portanto posso ser perdoado por esse pequeno deslize.

  • Já fiz muito por essas pessoas; agora, está na hora de fazerem algo por mim – por exemplo, perdoar-me e dar-me uma segunda chance. 

Meu coração sangra por Ted Haggard, por sua esposa e sua família. Não posso imaginar a tortura pela qual estão passando agora. Despojados do mais alto conceito que possuíam junto à nação, numa questão de poucas horas, estão agora se ajustando à necessidade de descobrir quais são seus verdadeiros amigos. Estão perguntando em que medida esses fatos, espalhados pelo mundo inteiro, afetarão seus filhos. A Sra. Haggard não poderá ir ao supermercado sem imaginar quem encontrará pelo caminho (um repórter? um membro da igreja? um crítico?). Nos próximos dias, cada vez que o casal sair de casa, encontrará pela frente câmeras insistentes, até o dia em que a mídia encontre outra pessoa para servir-lhe de esporte. 

As viagens, as conexões importantes, as entrevistas, o aplauso da congregação, o poder institucional, os benefícios e privilégios, as honrarias – tudo isso já se foi! O acesso a pessoas de prestígio e poder – acabou-se! Foi-se também a oportunidade de depositar diariamente uma palavra de influência e peso nas vidas de pessoas mais jovens e tratáveis! 

No decorrer da sua jornada, talvez chegue o dia em que recuperarão uma parte do antigo prestígio. Mas, por ora, esse dia está – ou deve estar – bem distante. 

Tenho orado, entre outras coisas, para que a liderança da New Life Church não pense que a melhor forma de “restaurar” Ted seja levá-lo de volta ao púlpito o mais breve possível. O pior que poderiam fazer é alimentar suas esperanças de que basta reproduzir um bom modelo de arrependimento para poder logo, logo retornar à vida pública. Para seu próprio bem, ele precisa tomar muito tempo para analisar e resolver os fatores que causaram sua queda. Voltar a ministrar não o ajudará em nada a resolver o que quer que esteja errado em sua própria alma. Ele e sua esposa precisam separar um longo período a sós, a fim de permitir que seu relacionamento pessoal seja curado. O perdão traz cura, porém é um processo longo, não instantâneo.  

E então eu oro:  

Senhor Deus e Pai, como tu deves entristecer-te quando vês um dos mais poderosos e, ao mesmo tempo, mais fracos dos teus filhos cair na armadilha do pecado e do mal. Não há pecado algum que alguém tenha cometido que qualquer um de nós não seria capaz de cometer igualmente. Por isso, ao orarmos por nosso irmão Ted Haggard, não oramos com atitude de condescendência nem de justiça própria, mas com espírito de humildade, porque estamos juntos com ele exatamente no mesmo patamar diante da cruz.  

Pai, concede a esse homem, e a sua esposa, a dádiva da tua graça. Livra-os das acusações reiteradas do diabo, o qual procurará tirar-lhes o sono, os tentará a falar demais para o público e semeará discórdia entre os dois, como casal, e entre eles e seus filhos. Envia as pessoas certas ao encontro deles, que possam lhes oferecer a mistura certa de esperança e amor restaurador. Livra-os dos bajuladores, que lhes falarão o que não devem ouvir. Impede-os de tirar conclusões equivocadas em seus momentos mais difíceis. 

Senhor, ilumina os líderes e irmãos da New Life Church. E também a liderança da NAE, que terá de conviver com os efeitos colaterais dessa tragédia. Ilumina ainda os cristãos em toda parte que estão se perguntando em quem podem confiar. Por que mais podemos orar? O Senhor sabe todas as coisas. Nós, quase nada. Amém.


Traduzido e publicado de “Leadership Blog, Out of Ur”, 5/11/2006 (blog.christianitytoday.com/outofur), com permissão de Christianity Today International, Carol Stream, Illinois USA (www.christianitytoday.com)

por Gordon MacDonald
 

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